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  • tatiana.

Uma discussão sobre o Camp no filme But I'm a Cheerleader

Em 2018 dois filmes foram lançados abordando os “programas de conversão para homossexuais” (gay conversion therapy). Tanto “O Mau Exemplo de Cameron Post” (The Miseducation of Cameron Post), de Desiree Akhavan, como “Boy Erased: Uma Verdade Anulada” (Boy Erased), de Joel Edgerton, focam na história de adolescentes enviados por suas famílias para esses espaços que tem como objetivo o apagamento de suas próprias identidades. Através de práticas e retóricas violentas, esses jovens devem ser redirecionados a um suposto caminho verdadeiro.

Há mais de 20 anos, a diretora Jamie Babbit abordou esse mesmo contexto no filme “Nunca Fui Santa” (But I’m a Cheerleader, 1999), no entanto, ela utilizou o humor como estratégia para apresentar o problema que esses lugares representam, a violência dessas práticas de apagamento e a falácia de discursos normativos que pretendem enquadrar as pessoas.

Todos os filmes mencionados retratam uma violência que pode não ser física, mas que não deixa de causar um impacto muito real e material nos corpos e subjetividades daqueles que são submetidos contra sua vontade a tais processos. Cameron Post, a protagonista do filme de Akhavan, em um momento do filme afirma para alguém: How is programming people to hate themselves not emotional abuse? (“Como programar pessoas para odiar a si não é abuso emocional?”), considerando a faceta de uma violência que não deixa cicatrizes visíveis. Os vários tipos de agressões desses processos de apagamento nunca são perdidos de vista por Babbit, porém, a diretora escolheu outra forma de lidar com um tema tão urgente.

No início da história somos apresentados a um cenário comum a muitos filmes estadunidenses ambientados no universo colegial. Jamie Babbit nos coloca em um contexto familiar para depois nos deslocar de uma expectativa prévia, a protagonista, que é uma cheerleader e namora o jogador do time de futebol americano, não está muito interessada em estar com o namorado. Nessa primeira sequência, Megan (Natasha Lyonne) demonstra claramente que se sente desconfortável ao beijá-lo. Um dos elementos dessa cena que é representativo do tom geral do filme é o exagero, não somente para ampliar efeitos cômicos, mas também para colocar em cheque certas noções normativas do que é ser homem ou mulher.

O tom exagerado reflete-se em vários aspectos do filme e é possível discuti-lo a partir do entendimento de “sensibilidade Camp”, abordada pela autora Susan Sontag. Entendo que a “predileção pelo inatural” do Camp contribui para a maneira como a diretora faz uso de elementos estéticos na desconstrução de noções normativas sobre gênero e sexualidade. E o próprio tom cômico do filme refere-se a essa discussão, já que “a questão fundamental do Camp é destronar o sério. O Camp é jocoso, anti-sério” (SONTAG, 1987, p. 332). O que de forma alguma impossibilita um debate comprometido sobre um tema importante.

Na sequência posterior, Megan aparece jantando com sua família. Seu pai inicia uma oração na qual as noções de obediência a papeis, como seguir um caminho programado e natural, aparecem em sua fala, dialogando com ideias que permeiam todo o filme. O nome do lugar para onde encaminham a protagonista é True Directions (“Verdadeiras direções”), pontuando que aqueles que ali estão desviaram de um caminho e precisam de alguém para lhes mostrar o que é certo ou errado. Quando Mike (interpretado por RuPaul), funcionário do local, afirma para Megan: We're not accusing we're supporting (“Nós não estamos acusando, estamos apoiando você”), a diretora apresenta a cena sob a perspectiva da protagonista.


Figura 1


É interessante notar como Jamie Babbit filma a cena de modo a nos levar a entender o oposto do que Mike está falando (Figura 1). A câmera está posicionada no ponto de vista de Megan, sentada sozinha em um sofá na sala de sua casa, em frente a um grupo de familiares e “amigos” posicionados como um tribunal, apresentando “provas” de que ela seria lésbica. O posicionamento da câmera coloca a audiência sentindo a pressão da protagonista e a maneira como ela está sendo questionada e julgada por seus pares. A vulnerabilidade de Megan diante da situação se intensifica quando ela é enviada para True Directions. Neste caso, a autoridade que era dos pais passa para Mike e Mary (Cathy Moriarty), criadora do espaço (Figura 2).



Figura 2


Megan e os outros jovens precisam cumprir tarefas para se “formarem” no programa. Para tal, devem cumprir cinco passos a fim de provar no final que se reconhecem como heterossexuais. Ao longo da história, o filme aponta para a impossibilidade da ideia nociva de conversão, e que os que acabam chegando na formatura, recorrem ao fingimento a fim de sobreviver ao local e à opressão de seus pais.

A falácia de um discurso, que pretende “enquadrar” subjetividades, é apresentada ao longo do filme através da estratégia do exagero. Seja do cenário, do uso das cores, da atuação do elenco e até mesmo de afirmações feitas pelos personagens. Como, por exemplo, o menino que ao ser perguntado do porquê ele achava que era gay, responde que o motivo era o fato de sua mãe usar calças.

Acredito que o exagero das cores, dos cenários e figurinos nos permite refletir sobre o caráter “inatural” do Camp e do universo de Babbit, sendo que o próprio estilo visual do filme funciona como um contra-argumento aos discursos normativos. Entendo que a diretora trabalha com esses elementos para apresentar a própria falsidade que é o True Directions e as ideias que o lugar representa.

Segundo Sontag, “Camp é uma visão do mundo em termos de estilo – mas um estilo peculiar. É predileção pelo exagerado, por aquilo que está ‘fora’, por coisas que são o que não são” (ibid., p. 322). Babbit traz à tona a artificialidade de um discurso normativo para nos convidar a entender o que está por trás, e o elemento teatral por vezes cômico, nos fala sobre as violências que rompem a superficialidade das cores rosa e azul. A ideia de natural se esfacela diante do teatral, das cores gritantes, dos rituais que se pretendem representativos do que é ser homem ou mulher. Em True Directions eles aprendem a atuar: You're so good in being straight, I keep forgeting things (“Você é tão boa em ser hetero, eu fico me esquecendo de coisas”), afirma um menino em um momento do filme, ressaltando esse elemento.



Figura 3


As meninas vestem rosa, os meninos vestem azul e as cores acompanham tanto figurinos como cenários (Figura 3). Encontramos a artificialidade do binarismo em todos os elementos da casa de True Directions, e as cores marcam os espaços e o cotidiano de cada um. Segundo Sontag, “o gosto Camp, tem afinidade com certas artes mais que com outras. Vestuários, mobília, todos os elementos de decoração visual” (ibid., 321). Mary Brown, criadora de True Directions, aparece em uma cena molhando plantas falsas e toda a casa revela essa artificialidade, inclusive, nas próprias tarefas que meninos e meninas devem aprender para performar (no sentido teatral), como na imagem acima.

No entanto, no True Directions Megan conhece Graham (interpretada por Clea DuVall), a personagem por quem irá se apaixonar e que desde o início desestabiliza todas suas certezas. No contexto do filme, essa questão não deixa de ser uma ironia em relação à intenção inicial dos pais da protagonista, já que ela é expulsa do programa no final do filme e refugia-se em um espaço que acolhe jovens homossexuais.

O filme de Babbit é uma comédia romântica com final feliz feito em uma época com poucas histórias assim. No seu primeiro longa-metragem, a diretora recorreu a um estilo específico, que me fez pensar no cinema de John Waters. E mesmo que essa sensibilidade Camp, no entendimento de Sontag, possua uma importância maior no estilo, o elemento visual do filme não é algo vazio. Toda a construção da mise-en-scène tem um propósito que, no meu entender, dialoga diretamente com a história contada e apresenta uma critica potente sobre um entendimento normativo de gêneros e sexualidades.


Referência


SONTAG, Susan. Notas sobre Camp In SONTAG, Susan. Contra a Interpretação. Porto Alegre: L&PM, 1987.

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