Buscar
  • Epistemologias Feministas

Cultivar nosso jardim: consubstanciando gênero, raça e classe*

Atualizado: 23 de Out de 2020

Drica Madeira**

De acordo com algumas estudiosas da Ética do Cuidado, em especial Carol Gilligan e Nel Noddings, existem duas formas distintas de assumir decisões morais. Em termos de gênero, penso poder dividi-las da seguinte forma: (1) a abordagem masculina, nas sociedades ocidentais, é centrada em princípios básicos no que diz respeito aos outros, uma moralidade que tem uma orientação para a justiça. Os homens se definem, habitualmente, de uma maneira individualista. O “eu” masculino afirma-se pela separação e dão destaque aos esforços feitos de forma individual, garantindo a distinção entre si e os outros; (2) a feminina centra-se no fato das pessoas terem responsabilidades umas com as outras, sendo imperativo o cuidado delas, constituindo uma forma de descobrir e avaliar o real, bem como, reconhecer a complexidade do mundo.

As mulheres têm uma espécie de fio condutor de suas vidas, integram a intimidade e suas identidades que giram em torno de relações estabelecidas com a comunidade e expressam temor quanto ao isolamento, preferindo a lógica da integração (Gilligan, 1982). O fato é que essa relação dicotômica também estabelece as relações éticas, que estão intrinsecamente ligadas à forma como os corpos se percebem no mundo. E se as formas de olhar o mundo explicam também nossas formas de tomar decisões, essas decisões morais e éticas estão diretamente ligadas aos corpos sexualizados, vulneráveis e precarizados (Butler, 2018). Em pleno sec. XXI, nas sociedades ocidentais, mais especificamente no Brasil, os homens expressam, dominando a teoria moral e o arcabouço ético, o padrão de desenvolvimento civilizatório que despreza todo o acúmulo dos saberes ancestrais das mulheres que durante muito tempo conduziu a vida das comunidades. Se os ideais de auto-suficiência, independência, autonomia e empresa de si mesmo tivessem feito o mundo prosperar, eu não estaria escrevendo este desabafo. Em verdade, eu bem sei, que poucas pessoas se importarão com a morte de uma senhora, negra, moradora do interior do Rio de Janeiro, avó de muitos netos, mas em especial, avó/mãe de três crianças. É bom saber que as pessoas morrem, porque a cada vida perdida em razão de sua própria vulnerabilidade de ser humano, acalenta os nossos corações que já sabiam, mas nestes momentos têm certeza, que ela, a morte, chega para todos os seres viventes. Situada em sua plena condição de fragilidade, agora te convido em um exercício de empatia, a acompanhar a história de uma família que podia ser qualquer outra família brasileira em condições de precariedades instituídas pelo Estado quando este não garante a mínima dignidade de bem viver aos seus cidadãos e cidadãs. Ingriane ficou conhecida no relato da professora Débora Diniz, em uma audiência pública que discutiu a ADPF 442 no Supremo Tribunal Federal, juntamente com brasileiros que nunca se sentiram vulneráveis, nunca passaram fome, nunca trabalharam em casa de família, nunca entraram em ônibus e nunca, quando mulheres, tiveram medo de serem estupradas quando voltavam para suas casas à noite depois do trabalho. Morta depois de um aborto clandestino, em uma cidade onde o abortamento legal inexiste e em um país onde as políticas para as mulheres estão a cada dia mais em desuso, para não dizer sem fomento, sem discurso, sem interesse, sem orçamento. Ingriane era uma mulher jovem, negra, brasileira, mãe de três filhos. Não me perguntem por seus pais (os dos filhos), não existe espaço para todas as respostas que a sociedade brasileira já tem em um texto tão curto. Deixou suas crianças aos cuidados de sua mãe, D. Marli, a quem o Estado brasileiro concedeu a guarda dos três netos depois de meses de peregrinação entre defensorias, juizados, advogados, INSS, Caixa Econômica e burocracias de toda ordem. Hoje, um dia como outro qualquer, a avó/mãe a quem a filha abandonada pelo Estado e pela sociedade brasileira que teima em não discutir e descriminalizar o óbvio, o abortamento, faleceu. Na certidão de óbito, infarto (precedido por causa desconhecida), chegou morta ao hospital. Deixou quatro dos cinco filhos que ainda lhe restavam. Deixou marido e netos. É claro que a morte é a única certeza de quem vive, mas para alguns ela vem a galope, sem assistência, e mostra toda a nossa precariedade com corpos racializados, sexualizados e financeiramente vulneráveis. O abismo da desigualdade nos assola faz tempo mas nos acostumamos de tal forma que nem sentimos mais dor. Esse texto não é sobre o abortamento ou a legalização do abortamento, a morte da Ingriane, a morte da D. Marli ou sobre quantas crianças não têm pai na certidão de nascimento. Esse texto não é sobre quem vai cuidar das crianças que perderam a avó dois anos depois de perderem a mãe, não, esse texto não é sobre o que já foi. Esse texto é sobre mim, sobre você, sobre a sociedade que nos tornamos. Esse texto é pra você perceber, através da morte do outro, que você também vai morrer, é inexorável. Mas a questão maior e fundamental é sobre como vamos viver, que mundo queremos e podemos construir. De qual moral e ética podemos falar quando falamos sobre os outros? O quanto você consegue se sentir parte do outro que também é você? Com centralidade na realidade das relações interpessoais, valorizar a responsabilidade, estabelecer capacidades de respostas que incluam o afeto, a atenção, o cuidado para com o outro, uma ética que se estabelece ao mesmo tempo que constrói uma melhor compreensão do mundo. Uma ética e moral que leve em conta o sujeito em sua ambiguidade, um sujeito que esteja em construção permanente em relação àquilo que não é ele mesmo (Beauvoir, 2005). Mobilizar um imaginário diferente do que se vive no neoliberalismo, onde todos somos empresários de nós mesmos, onde tudo é concorrência e o vínculo com o outro só contribui para a maximização de mim mesmo (Brown, 2019).

Na perspectiva da "Ética do Cuidado", as pessoas, ao permitirem aos outros sentirem dor, tornam-se, elas próprias, responsáveis por essa dor, constituindo de forma imperativa a tomada de atitudes para a prevenir ou aliviar essas dores. Noddings identifica a “Ética do Cuidado” como uma orientação à da teoria da justiça baseada em princípios e regras, pois considera que a ética está amparada na “atitude que expressa nossas memórias mais precoces sobre o fato de termos sido acarinhados e da nossa acumulação de memórias, que respeitam, simultaneamente, o ato de termos sido cuidados pelos outros e vice-versa” (Noddings, 1984:5).

Sendo assim, a expressão do cuidado, o ato de cuidar é superior a muitos outros que desenvolvemos socialmente, porque envolve atenção específica às necessidades particulares do outro, que é uma pessoa concreta, criando, assim, relação imediata de identificação. Para Noddings, uma relação global, intensa e que ocupa todo o tempo, toda a atenção e todo o interesse. Assim, de alguma forma todos foram e são “cuidadores de” e “cuidados por”.

O seu projeto de si mesmo depende do seu passado que existe anteriormente à sua própria existência. É você o sujeito e o coletivo que constrói o mundo e se constrói no e com o mundo. Resgatar a noção de comunidade e batalhar por uma nova forma de entender, organizar a sociedade e viver a vida faz parte de um projeto emancipador que atualmente enxergo, em especial, no feminismo anti capitalista e anti racista.

Chego ao final, acreditando que a noção de fim é ambígua uma vez que todo fim é ao mesmo tempo um ponto de partida. Mas isso não impede, de forma alguma, que ele possa ser visto como fim, um término, desfecho mas é nesse poder de se reconstruir por meio da natureza, se sabendo parte, e, portanto cuidando dela é que reside a plenitude de uma vida. Valorizar o comum é voltar ao sujeito enraizado, dependente e comprometido com a comunidade.


Referencias bibliográficas


BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambiguidade. Tradução Marcelo Jacques de Moraes- Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

bell hooks. Teoria Feminista: da margem ao Centro. Tradução: Rainer Patriota – 1ed. - São Paulo: Perspectivas, 2019.

BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo. São Paulo, Politeia, 2019.

BUTLER, Judith. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Tradução Fernanda Siqueira Miguens; revisão técnica Carla Rodrigues. – 1ª ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

GILLIGAN, C. In a Different Voice: Psychological Theory and Women‟s Development. Cambridge: Harvard, 1982.

NODDINGS, Nel. Caring, a feminist approach to ethics and moral education. Berkeley: University of California Press,1984.

PAREDES, Julieta. "Uma ruptura epistemológica com o feminismo ocidental." Originalmente publicando em FINO, Hilando. Desde el Feminismo Comunitário. La Paz: Mulheres Creando, 2010, p. 75 -94.

* Este ensaio foi resultado de reflexões que surgiram a partir da aula do curso As Pensadoras sobre a "Ética do Cuidado", que tratou do pensamento de Carol Gilligan e foi ministrado pela Profa. Ilze Zirbel. O curso “As pensadoras” foi uma oportunidade única de compartilhar com uma diversidade de mulheres saberes, vivências e afeto. Esse texto foi fruto de dois sentimentos: deste compartilhamento teórico e da necessidade de contribuir efetivamente para a garantia da sobrevivência de três crianças que perderam a mãe e a avó em situação de omissão do Estado brasileiro. A ética do cuidado e outras tantas questões partilhadas nestes encontros, me fizeram lembrar de uma frase da carta de despedida de Olga Benário: lutamos pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo!


** Drica Madeira é formada em Letras Português Literatura pela UCP – Petrópolis, com mestrado em Direito pela mesma Universidade. A autora foi também coordenadora do Centro de Referência e atendimento à Mulher de Petrópolis (CRAM – Tia Alice), coordenadora executiva da Superintendência de Direitos da Mulher do Estado do Rio de Janeiro (SEDH-RJ), coordenadora executiva do Planetário do Rio de Janeiro. Atualmente é Doutoranda em Ciência da Literatura na UFRJ sob orientação da professora emérita da Escola de Comunicação da UFRJ, Heloisa Buarque de Hollanda e da professora titular Beatriz Resende. Tema de pesquisa - Feminismos: rupturas epistemológicas e novas metodologias. Recentemente publicou o livro, fruto de sua dissertação “Maria da Penha: entre a teoriae a prática” (Editora Literar, 2019).


Posts recentes

Ver tudo

Receba nossas atualizações

© 2020. Orgulhosamente criado por Epistemologias Afetivas